quarta-feira, fevereiro 01, 2006



ARTE Sumie

Origens
A arte sumi (tinta) foi introduzida no Japão no sétimo século chinês, cujas datas remontam a cerca de 2000 a.C. Ao longo do tempo, essa arte se estabeleceu como também típica japonesa, com grandes contribuições feitas pelo monge Toba-sojo, que desenhou “Choju Giga”, no período Heyan (795-1185), e Sesshu, no período Muramaki (1333-1587), considerado o primeiro estilo puramente japonês de desenho sumie.
Sumie, também chamado “suiboku-ga”, refere-se à pintura japonesa de tinta monocromática, uma técnica que começou na China durante a Dinastia Sung (960-1274) e foi assimilada pelos japoneses no século XIV com a ajuda de monges Zen-Budistas. O sumie tem suas raízes na caligrafia chinesa; as pinceladas aprendidas na caligrafia são as mesmas utilizadas na pintura.
No início do século X o Japão começou um grande intercâmbio com a China, enviando estudantes para assimilarem o que de melhor a cultura chinesa possuía, destacando-se principalmente a caligrafia e a religião. Uma herança deixada por este laço de amizade foi a semente daquilo que se transformaria no Zen-Budismo, que têm como data de nascimento o século XII.

Técnica
O mais importante é que o sumie representa não somente uma bela e singular forma de arte, mas também uma filosofia. Enquanto a maioria da pintura ocidental clássica teve como meta a descrição realista do mundo e seus objetos, o sumie sempre foi expressão de percepção do artista. A pintura ocidental usa a cor para criar sombras, tons e um sentido de espaço. O sumie tradicional, por outro lado, usa unicamente tinta preta. Na pintura oriental, a tinta preta é a mais alta simplificação de cor.
Sumie é tradicionalmente um exercício espiritual, assim a meditação e planejamento são predominantes. Por exemplo, dissolver a tinta na pedra torna-se um tempo para contemplação. Isso é feito em um movimento na forma de oito, constantemente levando e trazendo a tinta (oceano) na superfície da pedra (terra).O pincel é segurado em 90o em relação ao papel, entre o polegar, o indicador e dedo médio. Preferencialmente deve ser segurado no centro do cabo, de modo que o braço fica quase paralelo à superfície da pintura. Quando se faz pinceladas, a mão e o pulso não se movem, e sim o braço.
O Sumie possui como principal característica a rapidez em que é realizado, a inspiração artística é transmitida no prazo mais curto possível, onde não existe tempo para reflexão ou pensamento daquilo que está sendo realizado, o artista deve seguir sua inspiração espontânea. Não existe a possibilidade de nenhuma correção ou repetição, um traço deve ser encarado como único, se existir algum erro ele está “morto” e portando toda obra perdida. Para se pintar Sumie, o praticante tem que conhecer perfeitamente o objeto que vai pintar, para que não exista reflexão ou dúvida durante o processo criativo deve ocorrer uma observação quase que constante das coisas à volta, assim sua prática também traz uma consciência maior sobre a vida, pois com ela começa-se a existir uma maior sensibilidade das coisas e pessoas que nos cercam.
Esse foi o espírito que levou muitos Samurais a praticarem o Zen e o Sumie. Um golpe de espada deve ser realizado espontaneamente sem chance para correções ou reflexões, caso contrário já se estaria morto devido à velocidade que ocorriam os confrontos.
Shin’ichi Hisamatsu, filósofo e profundo conhecedor da arte Zen, ressalta sete particularidades que devem existir em uma obra Zen, são elas: assimetria (fukinsei), singeleza (kanso), naturalidade (shizen), profundidade (yugen), desapego (datsuzoku), quietude e serenidade interior (seijaku). Portanto, não são todas as obras que podem ser classificadas como Zen-Budistas.

Os Materiais
São termos relacionados à arte: sumi (tinta), suzuri (bastão de tinta), bokusho (arte), kami (papel), e o fude (pincel, escova).
No Sumie, utiliza-se uma tinta feita de fuligem e cola (Sumi) e pincéis de pêlo de ovelha ou texugo de maneira a reter muito líquido. Mas é o papel, na maior parte das vezes fino e absorvente, que dá a principal característica deste tipo de pintura.A razão de se escolher um material tão frágil para transmitir a inspiração artística, é que ela deve vir à tona no prazo mais curto possível. Se o pincel se retardar muito sobre o papel este é transposto. A cor branca que fica de fundo no papel (cor original) é relacionada ao Universo. Não se vê um fundo definido e assim a característica relacionada ao vazio é preservada.
Cada pincelada deve estar cheia de energia (Ki - energia vital que existe em todas as coisas). O artista Sumie, assim como um mestre da confecção da espada samurai, coloca seu espírito na obra e com isso cria vida através de sua expressão artística.

Os Quatro Temas Nobres
A arte do sumiê possui alguns temas recorrentes. Os mais importantes são os quatros nobres (shikunshi), que evidenciam a profunda ligação com a natureza. São eles: a orquídea selvagem, o bambu, a ameixeira e o crisântemo.
Considerada a mãe da pintura sumiê, a orquídea selvagem representa o verão, um espírito jovial, símbolo da graça e das virtudes femininas. A orquídea selvagem cresce no lugar considerado o mais inspirador de todos: onde a montanha encontra a água.
O bambu é o pai da pintura sumiê. Caracteriza a simplicidade da vida e o espírito humilde, qualidades valorizadas no zen-budismo. Ele representa o inverno e é o tema mais pintado no oriente. Seu tronco simboliza a força e as virtudes do sexo masculino, refletindo um senso de equilíbrio perfeito. Sua retidão é comparada ao caráter íntegro e o tronco firme lembra a estabilidade inabalável, apesar de flexível. Seu centro é oco, remetendo ao sentido de vazio interior do zen. Suas folhas verdes sempre frescas e inalteradas no decorrer das estações são comparadas à estabilidade, à força de resistência e à fidelidade inabalável de um caráter válido como modelo de ética.
No frio mês de janeiro, a ameixeira floresce, trazendo com ela o símbolo da esperança e da tolerância. Expressa a renovação e a continuidade da vida. Seu tronco retorcido inspira dureza, especialmente na existência árida do começo do inverno. Ainda assim, a ameixeira guarda a promessa da primavera e se confirma quando os primeiros brotos delicados aparecem a cada janeiro, em tempo de saudar o ano novo.
Finalmente, a florescência tardia do crisântemo, cuja flores antecipam a chegada do inverno, desafiam o frio e triunfam no outono. Por sua perseverança e resignação, a flor representa qualidades como lealdade e modéstia. Devido à sua forma circular, é considerado o símbolo da vida familiar. Além de suas virtudes, o crisântemo é famoso por ser o emblema da família imperial japonesa desde o século X.